Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Conspiração Mandra: os ladrões da boa-fé

Pelo traço, essa tirinha é de Laerte.

Com a banalização da violência, é cada vez mais difícil distinguir a prática de um crime que de tão comum já beira o simples "desvio de conduta". Refiro-me ao estelionato, o artigo mais famoso do Código Penal (171), do qual somos vítimas constantes nos grandes centros urbanos. Sem querer parecer nazi, mas alguns pedintes, mendigos e os famigerados flanelinhas, "tomadores de conta" que na verdade tomam é o nosso suado dinheirinho como se fossem os donos das vias públicas, são a institucionalização da vadiagem. Ops, errei. Esse é o nome científico do Bolsa Família. Mhuahahaa. Com ressalvas aos que ainda se propõem a lavar o carro do cliente, pois isso sim é trabalhar.

O fato é que, além de receber a mesada governamental, algumas dessas pessoas gozam de plena saúde e capacidade para o trabalho - mas preferem a estrada curta da perdição, custeada por pais de família de sentimentos cristãos que acreditam estar ajudando uma mãe com um filho de colo (quando, na verdade, é uma criança "alugada" para custear a manutenção do vício do crack).

Diariamente, no semáforo da Rua Gervásio Pires com a Av. Conde da Boa Vista, é possível se deparar com um ceguinho sendo puxado pelo pai, a mendigar alguns trocados. Seria triste se o cego fosse realmente deficiente, mas eu conheço a peça de outra freguesia (bem distante, por sinal), lá das bandas do Habib's de Piedade, onde ele vendia Chicletes Adams. Ele comercializava com seu irmão albino - este, um trabalhador de verdade, que agora vende frutas. Agora, distante 25 km do ponto antigo, o que-se-diz-cego imagina que os motoristas do Centrão do Recife jamais estiveram em Jaboatão dos Guararapes.

Dia desses comprei uvas sem sementes e morangos ao albino, que permanece em Piedade. Quando terminamos a negociação, eu provoquei: "tenho visto teu irmão no bairro da Boa Vista. Ele está no lugar certo, pois agora tira onda que é cego, já pensasse?!". O rapaz ficou vermelho, tomado por uma fúria movida a vergonha e desabafo, entregando todo o esquema do 171: "ele e meu pai querem o caminho mais fácil. Isso pra mim é igual a roubar", disse o albino, que pelo visto, mora com a mãe. Comprei mais duas bandejas de morango, só para ajudá-lo a acreditar que o trabalho enobrece e remunera o homem. Mas é certo que os trocados faturados pela dupla dinâmica igualam-se (ou superam) à margem de lucro da ovelha branca da família.

Na terça-feira, quando eu estava saindo da Universidade Capitalista de Pernambuco - onde deposito todas as minhas esperanças, créditos e juros bancários - fui abordado quase invasivamente por um magrinho que é a cara de Djavan e se diz "guardador de carros", na vã esperança (para ele) de me tirar algum dinheiro.

Visivelmente lombrado, o desocupado me abraçou, me chamou de "meu patrão" e ainda veio com uma conversa fiada de que era pai de três filhos. Eu, que só paro meu Santana no estacionamento oficial da Unicapt, sem recorrer a esses malas, olhei bem para a cara-de-pau do sujeito (esta semana estou com "tolerância zero") e argumentei que também era pai de três filhos e que nem por isso eu estava bebendo num dia útil para comemorar minha fertilidade. Aí o sósia de Djavan "se saiu" dançando reggae e praguejando algo.

Eu comentei com o vigilante da Unicap que a minha barba grande e a proximidade com dezembro devem estar me fazendo parecer com Papai Noel, porque o que surge de gente pra me pedir coisas e encher meu saco... Mhuahaha. O vigilante, que conhece a "peça", disse que ele não tinha nem mulher, nem filhos. "Ele queria dois contos para comprar 'a coisinha', vá por mim", entregou o funcionário, falando a língua certa do povo. Bem, estou longe de ser o bastião da moralidade, até tolero o uso de drogas para fins terapêuticos, religiosos, artísticos e fotográficos, contanto que cada um sustente seu vício sem precisar recorrer à mendicância ou extorsão.

Aí fui cair na besteira de comentar o episódio com o atendente evangélico do quiosque de lanches que eu frequento na Unicapt, carregando na emoção ao ponto de comentar que "às vezes tenho vontade de matar um mizerávi desses". O irmão, que se diz são e salvo mas é cheio de hipocrisia no coração (depois detalharei algumas, em outro texto), veio com a resposta na ponta da língua, para defender o flanelinha: "o presídio está cheio de vagas, se o senhor estiver interessado", disse a jovem ovelha do imenso rebanho da Assembléia de Deus. Aí eu ainda perguntei, para ter certeza, se uma das vagas seria para o mala. "É para quem mata".

Eu, que já estava no limite da paciência, tive que rebater sem freio, mostrando a verdadeira face do mal: "ainda bem que sou réu primário e tenho curso superior. Dificilmente eu ficaria preso".

:: Nesse dia, o crente não conseguiu evitar transparecer o semblante do ódio pela impunidade burguesa. Mhuahahahahahahahah!

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Eu sou um cara muito espaçoso

Atentem para o singelo aviso de estouro, acima do nome Gmail

Nunca pensei que este dia fosse chegar: atingi, na manhã de hoje, o ápice da minha cota de espaço virtual no Gmail, totalizando quase 7.100 mb. Vejam só que ironia! Dia desses, comprei um HD externo de 350 Gigas e um colega achou exagerado. Depois, vi que os desktops mais modernos já saem de fábrica com 1 Terabyte de HD. E eu já vou com quase sete Gigas no Gmail.

Coincidentemente, recebi há pouco um e-mail que criticava justamente essa cultura inútil de acumular coisas velhas. Era um Spam metido a corrente, mas tinha um quê de verdade. "Esvazie suas gavetas, abra espaço para o novo!". Bem elaborado como todo Spam-Corrente do bem, o tal e-mail sugere que as coisas boas só vêm para quem abre espaço para elas na bagunça dos entulhos a que nos apegamos sei lá porque.

De fato, algumas coisas velhas já se foram. Ontem, vendi o saudoso Versailles, numa negociação que envolveu até um Hiphone, o iPhone falsiê fabricado na China. Hilário, tem até uma maçã no verso, mas não é mordida. E, em letrinhas miúdas, a cara-de-pau dos Piratas do Caribe: "designed by Apple in california (sic) in China Mobile".

O infelizardo que comprou meu Versa é gari, ou seja, já está meio acostumado a lidar com entulhos. Garanto que ele será muito feliz com o Preto Velho no gái (GNV, em pernambuquês). Ele até esqueceu um auto-retrato que fez no hiphone, todo fardadinho e sorridente.

No mais, preciso arrumar minhas gavetas, excluir e-mails inúteis etc.

:: Atualizado às 14h -> cometi um ligeiro mistake no cálculo do meu espaço do Google. Em verdade vos digo que o Gmail armazena tão somente míseros 7 gigas.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Chegou a hora de brecar


Quando um grande amigo meu se separou da mulher, manteve a discrição ante o meu insistente interrogatório e simplificou sua exposição de motivos com uma singela frase: "eu precisava de um freio de arrumação na minha vida". Embora, na época, eu tivesse considerado sua atitude drástica e insana (porque privou-lhe da casa, do carro e das crianças), agora finalmente percebo que eu é que estava errado em aconselhá-lo a voltar atrás.


A olho nu, todos os problemas dos outros parecem simplificados. "Don't worry about a thing cause every little thing gonna be all right" foi o conselho ótimo deixado pelos três pequenos passarinhos da lombra de Bob Marley. Antes tivessem dito para que o músico não comesse demais antes de chapar, para não morrer sufocado no próprio vômito. Ou seja, Bom Conselho de verdade, só lá pros lados de Garanhuns (onde se avizinha o município pernambucano chamado Bom Conselho, um ótimo lugar para quem gosta de se intrometer na vida dos outros).

Venho tentando abarcar o mundo com as pernas há vários meses, numa vã ilusão de querer fazer tudo ao mesmo tempo agora. Inconscientemente, tentei evitar a má influência do ditado que diz que "a cabeça desocupada é a oficina do diabo". Por isso me ocupei bastante mesmo - e no entanto, só consegui a proeza de fazer mil coisas mal feitas, pondo em risco até a minha saúde. Acabei ficando mais ausente em casa, na Universidade Capitalista Graças a Deus, no trabalho e no freela-empreendimento que eu vinha tocando em segredo. Tudo isso com a nobre intenção de amealhar o vil metal e conquistar mais conforto para meus inocentes.

O resultado não poderia ser diferente: distanciamento, negligência e estresse, em todos os campos. Lembrei até da música de Noriel Vilela que meu pai cantava pra mim, quando eu ainda era adolescente: "Ah, mô fio, do jeito que suncê tá, só o Ome é que pode lhe ajudá (...) Cê tem sido mau fio, mau marido e inda puxa-saco de patrão. Fez candonga de companheiro seu, ele botô feitiço em suncê. Agora só o Ome à meia-noite é que o seu caso pode resolver". O "Ome", em questão, é o santo da macumba.

Eu até poderia seguir a dica daquele brother psicólogo e culpar meu genitor pelas sequelas emocionais deixadas pelo bullying musical. Mas apesar de ter certeza que iria pro céu de qualquer jeito, prefiro assumir minhas faltas e pisar fundo no freio. O problema é grana para pagar o curso de Direito? tudo bem, eu desisto. Ou melhor, adio o sonho para um momento economicamente mais oportuno.

O que importa, de verdade, é estar vivo. Conformismo melhor não há. E sobre os dois anos e meio "perdidos" com o curso, prefiro acreditar que foram essenciais para que eu sofresse e chegasse hoje a essas conclusões todas. Estou quase caindo de maduro.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

A trocada de pneu mais rápida da minha vida


Tive a excelente oportunidade de retomar minha malhação à força, ontem. Seguia lindo e loiro para a Universidade Capitalista Graças a Deus, quando o pneu dianteiro-esquerdo do meu santana furou justamente no cruzamento da Avenida Mário Melo com a via local que dá acesso à Rua Gervásio Pires. Lugar ermo do bairro de Santo Amaro, na calada noite preta.

Adrenalizado pelo pavor de estar à deriva em plena rota de ligação do bairro mais barra-pesada da Zona Norte com o Centrão do Recife, desci rapidamente do possante e tratei de botar a mão na massa, ou melhor, na graxa. Até agora estou em dúvida se o tempo transcorreu em câmera lenta como eu imaginei que estivesse.

Quinze segundos: depois de ver passar "uma galera" de jovens brasileiros (pelo estereótipo médio do IBGE), abri o porta-malas para tentar ter acesso ao estepe. Lamentavelmente, carro de família é a extensão do quartinho de despejo, com dezenas de quinquilharias que a gente vai acumulando ao longo da vida. O porta-malas tinha de tudo, desde o estoque controlado de Toddynhos e Goiabinhas (que escondo no carro para as crianças não tomarem/comerem tudo de uma só vez) até uma impressora velha, uma bateria de carro (do finado Versailles), aspirador de pó e galão de gasolina (vazio). Um peso absurdo que dificultava a retirada do forro que cobria o estepe.

Um minuto: com todas as minhas forças, puxei o pneu sobressalente das entranhas da bagunça e já me posicionei, sentado, diante do bronqueiro que furara. Ferramenta na mão, comecei a distorcer a porca. Sempre ligado, olhando para os lados a cada três segundos, naquela paranóia ululante, percebi a aproximação de um novo grupo de jovens brasileiros - ainda distante cerca de 500 metros. Calculei em 4 minutos o tempo para o "contato visual de lá pra cá" com a vítima obesa que transborda prosperidade na cara.

Um minuto e meio: a última porca parecia emperrada, demandando que eu me levantasse e pisasse paquidermicamente sobre a chave de boca. Olhei para o grupo que se aproximava já a uns 350 metros, numa saudável algazarra juvenil, chutando latas de lixo e batendo nos portões da vizinhança.

Dois minutos: posicionei desesperadamente o estepe, encaixando um parafuso no buraco, de primeira. Já podia escutar burburinhos vindos do grupo de brasileiros típicos. No compasso dos batimentos do meu coração vagabundo, apertei os quatro parafusos (sorte que não era um carro mais moderno, que tem cinco!) e dei a minha proposital escarrada de polícia, em alto e bom tom (uma tática infalível para afugentar pessoas).

Três minutos: retraí o macaco na velocidade da luz e saí empurrando o pneu furado para os fundos do veículo, tal qual um borracheiro experimentado. Abri novamente o porta-malas. Toddynhos por todos os lados. Olhei por dentro do para-brisas traseiro fumê, fazendo com que minha visão além do alcance transpassasse pelo para-brisas dianteiro, para ver se o grupo já estava muito perto. Felizmente, um Santana prata com porta-malas aberto tem cara de carro de Serviço Reservado da PM, e o grupo resolveu atravessar a rua para passar do lado contrário ao que eu estava.

Quatro minutos: joguei tudo para dentro, com toda a ignorância que Deus me deu. Fechei a mala, entrei no carro e piquei a mula sem colocar o cinto de segurança. Agora já posso dizer que estou apto a trabalhar em qualquer escuderia da Fórmula 1.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Operação de coleta de material orgânico adubado concluída com sucesso!


Demorou, mas saiu. Não sou Top Model e nem cliente potencial do Danone Activia, mas confesso que travei. Com intervalo de exatos sete dias, entre a primeira e a última amostra, finalizei na madrugada de hoje o mapeamento científico das minhas mazelas, através daquele que promete ser o mais complexo exame de fezes de todos os tempos. Digo isso porque são dez dias úteis de prazo para que a ciência examine e diagnostique o resultado da minha digestão nas datas de 13, 17 e 20 de outubro.


Agora, livre da obrigação com Dona Elizabeth, posso finalmente mergulhar de cabeça na dieta desintoxicante de um mês, receitada pela Dra. Harvard. Apesar de bem balanceado, o novo menu confronta diretamente o pilar principal da minha antiga pirâmide alimentar - ao abolir, definitivamente, os laticínios da minha vida.

Já começo a sentir os primeiros sintomas de abstinência pela falta que a manteiga, o leite e os queijos me fazem. Tento canalizar minha psiquê para o argumento da Dra. Harvard (contrário ao "suco de vaca"), ensaiando um nojo pelos derivados do leite manuseados sem a mínima higiene por mãos não-lavadas dos peões. Mas é difícil, pois sempre fui um Avestruz Master. Outra "novidade" do cardápio é comer atum no café da manhã, acompanhado por um ovo de galinha de capoeira, uma fruta, inhame e leite de soja. Logo eu, que costumava tomar apenas um copázio de café-com-leite-e-Nescau (o tradicional mocaccino caseiro).

E não adiantou explicar aos meus filhos que a galinha de capoeira tem esse nome porque vive solta e não se alimenta de ração. Os meninos insistiram para comer os ovos caríssimos de R$ 0,50 (a unidade), idealizando que a galinha era capoeirista - e que por isso, eles lutariam melhor depois de comer os ovos.

Hoje à noite precisarei envergar novamente o meu terno preto modelo Máfia Italiana, para conferir o Concerto da Amizade - em homenagem ao engenheiro francês Louis-Léger Vauthier, que construiu o Teatro de Santa Isabel. Espero que minhas vestes não fiquem muito folgadas, depois de 12 horas na dieta. Principalmente agora, que o luftal psicológico mandou para o laboratório tudo aquilo que fez minha barriga crescer na última semana. Mhuahahahaha.