
É como eu sempre digo: "Se o mundo dos negócios não lhe parece Justus, passe a bola"
Para alcançar o mérito de empreendedor não é condição
sine qua non ter atingido o objetivo pretendido, quando da abertura do negócio - ou seja, o sucesso pelo retorno do investimento através do lucro. Empreendedorismo é experiência. Quebrar a cara, aprender errando. Inclusive saber a hora de sair do negócio, para que ele não engula você, empresário, tal qual aquela piada infame sobre a semelhança entre um furacão devastador e uma ex-mulher, que a princípio chegam quentes e úmidos, mas na hora do choque são capazes de levar, em segundos, todos os seus bens.
Tive algumas experiências reais de empreendedorismo, nas vidas paralelas ao "script convencional" do roteiro da minha existência como jornalista, marido e pai de famílias. Sim, amig@s, foi através dessas aventuras capitalistas selvagens extra-ordinárias (sic) que consegui realizar o sonho de todo geminiano: viver várias vidas ao mesmo tempo, quase sem choque de interesses entre elas. Nem pagamento de pensão alimentícia. Mhuahaha.
Tudo começou com o maledetto MBA em finanças, que concluí em 2004 sem receber o certificado, pois era um curso-jabá condicionado à minha permanência na editoria de Economia do Jornal do Commercio. Saí do jornal duas semanas antes da cerimônia de formatura - e, misteriosamente, meu certificado foi extraviado para todo o sempre. Bem, vão-se os anéis e ficam os dedos. O máximo que posso fazer é não recomendar o curso e usar meus dedos para outras coisas mais úteis e lúdicas, como digitar textos.
Além do Mandrey família, do Mandrey jornalista e do Mandrey estudante de Direito, escondi por alguns meses o Mandrey Empreendedor. Vixe, auto-referência em terceira pessoa já vai abrindo espaço para o Mandrey Político ou então o pior... Mandrey Internado no Hospício.
O fato é que já abri bar em sociedade, desfazendo o casamento (com o sócio), apenas por uma questão singela de falta de confiança nele. Mas o negócio prosperou e se mantém até hoje, o que me dá um certo orgulho porque contém o DNA do meu suor, indispensável pontapé inicial para o "fazer acontecer".
Depois veio o quiosque de lanches dentro da Universidade Capitalista Graças a Deus (Unicapt), um sonho recente de ousadia para ajudar no custeio do meu curso de Direito - onde empreguei duas pessoas, toda a minha esperança e também algumas dezenas de milhares de reais, obtidos de maneira lícita através do sistema financeiro nacional.
Esse último desafio também quase deu certo. Trabalhei como nunca, apesar da aparente postura de "mero investidor", com a minha indefectível cara barba-ruiva de prosperidade. Viração diária, das 7h às 23h, sempre correndo contra o relógio. Otimizei processos, eliminei fornecedores sem dar um único tiro, passando a produzir o que comercializava. Enxuguei desperdícios, exercitei minha capacidade de negociação, peguei em volumosos maços de dinheiro todas as noites. Mas o lucro obtido era pouco, diante do trabalho empregado. Temi por um infarto, senti o verdadeiro valor que um momento de ócio pode ter na vida de um cristão superatarefado e resolvi encerrar esse ciclo, antes que ele me encerrasse primeiro.
Anunciei a venda do empreendimento e abençôo de coração o seu novo dono. E embora exista a sensação de tempo perdido, acredito que mais uma vez valeu a intenção. O bom de viver várias vidas coadjuvantes é que quando uma delas fracassa, a gente volta para a segurança do papel principal - este, graças a Deus, plenamente consolidado há mais de dez anos. O melhor de tudo é que vou errando, mas sigo fazendo Direito. O que me remunera hoje é esse trocadilho infame.